Juventudes

Juventudes, Participação e Ensino Médio: uma análise a partir de entrevistas com jovens estudantes

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  • A importância da inserção dos estudantes como participantes ativos nos debates sobre gestão

  • Como a escuta ativa pode contribuir para motivação dos jovens e melhoria na qualidade da educação

  • Questões curriculares: como os jovens relacionam o currículo com a qualidade do ensino e sua eficácia

No texto a seguir, refletimos sobre participação juvenil e educação, apresentando as perspectivas de quatro jovens oriundos de escolas públicas de Ensino Médio de três estados brasileiros – Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná –, que foram entrevistados durante o Seminário Internacional “Desafios Curriculares do Ensino Médio”, realizado entre os dias 09 e 10 de novembro de 2016 na cidade de São Paulo. Sendo assim, nosso principal objetivo é dar visibilidade às vozes dos estudantes que, certamente, têm muito a contribuir para o debate sobre a educação em nosso país.

Em Debate: Juventudes, Participação e Ensino Médio

Temos assistido as juventudes buscando visibilidade em todos os espaços de discussão e, em especial, na área da educação. Fala-se em gestão democrática, participação dos diferentes “atores” no dia a dia do trabalho escolar, mas será que estamos de fato promovendo espaços para que essa participação aconteça? Existem canais de diálogo e de escuta dos jovens? Sabemos o que os jovens pensam e querem? Que mecanismos os jovens estão utilizando para que as suas vozes, ideias e opiniões sejam ouvidas? Como vemos/percebemos/entendemos as juventudes?

Essas são perguntas que circulam no debate educacional e nos levam a entender que temos ainda um longo caminho para trilhar no sentido de promover a inserção dos estudantes nos debates educacionais como participantes ativos dos diversos processos nas escolas. Entendemos a escola como um lugar de construção coletiva de conhecimentos, de desenvolvimento de habilidades e atitudes importantes para o convívio social, o que implica necessariamente em escutar e compreender as múltiplas vozes dos que compõem o universo escolar.

Neste artigo optamos por entrar no debate sobre participação juvenil e educação apresentando algumas perspectivas de quatro jovens oriundos de escolas públicas de Ensino Médio de três estados brasileiros – Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná –, que foram entrevistados durante o Seminário Internacional “Desafios Curriculares do Ensino Médio”, realizado entre os dias 09 e 10 de novembro de 2016 na cidade de São Paulo. Sendo assim, nosso principal objetivo é dar visibilidade às vozes dos estudantes que, certamente, têm muito a contribuir para o debate sobre a educação em nosso país.

Como podemos observar nos trechos citados abaixo, ao mencionarem os desafios enfrentados nas escolas públicas brasileiras, os jovens entrevistados apontam as dificuldades no aspecto formativo, que fica muito pesado no Ensino Médio, como diz o estudante Lucas Eduardo, de São Paulo, já que nessa etapa é preciso “suprir as necessidades [lacunas] geradas pelo Ensino Fundamental, além de uma preparação para o futuro”. Apontam ainda outros desafios a serem superados, tais como:

A infraestrutura; a falta de investimento; a didática de como é passado o conteúdo para a gente; a gente também enxerga como desafio o estudante não ser ouvido, a gente não ter voz. Tudo que a gente fala é colocado como brincadeira de adolescente, sendo que a gente está falando sério. E a gente enxerga desafio até mesmo conosco, desafio de a gente estar mais focado, de a gente estar se comprometendo mais. (Ana Júlia Ribeiro, estudante do Paraná)

Resgatar alunos que se perderam no caminho. A falta de atenção ao aluno faz com que ele se afaste, deixe a escola. Quando você volta a dar atenção para o estudante, ele retorna – resgatar o aluno para mostrar que ele tem valor. (Jordan Campos da Costa, estudante universitário do Rio de Janeiro)

Manter o aluno motivado a estudar, a querer estar naquele ambiente. Muita gente faz a escola por obrigação, porque se você não terminar o Ensino Médio e não pegar um diploma, você não consegue arrumar um trabalho. Mas não tem que ser assim, eu acho que não tem que ser assim. (Lidiane de Paula Pereira, estudante universitária do Rio de Janeiro)

Além dos desafios pontuados acima, os jovens relacionam, na maioria das vezes, a promoção da qualidade da educação com o grau de participação e comprometimento/corresponsabilização de todos os “atores” escolares, criando inclusive uma relação de dependência: se não há participação, a qualidade é baixa. Vejamos a seguir:

O papel dos estudantes, responsáveis e comunidade escolar na qualidade do nosso ensino e na qualidade da infraestrutura é totalmente essencial. A gente realmente precisa de um comprometimento maior nosso, mas ele não pode partir só da gente, ele tem ser complementar ao comprometimento do governo, ao comprometimento do Estado. Então, o nosso papel seria estar ali mantendo isso, estar buscando melhorias, estar reivindicando e estar realmente se dedicando. Enquanto que o papel deles é nos dar esse apoio, nos dar essa estrutura, para daí sim a gente conseguir manter ela e fazer um trabalho em conjunto de comunidade escolar e Estado pra gente conseguir um ensino de qualidade. (Ana Júlia Ribeiro)

Os pais têm um papel muito importante. Eles têm que se interessar pela educação que está sendo oferecida aos seus filhos. Participar mais perguntando como está na escola e ajudar. (Lidiane de Paula Pereira)

Os entrevistados mencionam ainda a importância da visibilidade dos jovens e da escuta ativa por parte da gestão escolar e da equipe pedagógica para a promoção da qualidade da educação, evidenciando, em certa medida, a ausência de mecanismos que promovam a real participação dos jovens nas decisões tomadas na escola:

Os gestores, para nos oferecer uma qualidade melhor, acho que eles precisam voltar os olhos para os alunos. Muitas vezes a gente tem relatos de que tem gestores, que tem equipe pedagógica que simplesmente descarta a sugestão do aluno, simplesmente não ouve. O aluno está sempre errado, a opinião do aluno nunca vale. Então, acho que o papel deles é realmente fazer essa linha de diálogo entre a equipe pedagógica, entre o serviço que eles oferecem, e entre a gente que está recebendo esse serviço. (Ana Júlia Ribeiro)

Um ponto recorrente no discurso dos jovens entrevistados diz respeito à relevância que a escuta ativa, por parte dos dirigentes escolares e equipe pedagógica, tem na manutenção do interesse e na própria motivação dos alunos em relação aos seus estudos, como afirma a jovem Lidiane:

Todas as escolas vão continuar tendo como desafio manter o aluno interessado. Enquanto não sentar com o aluno e perguntar: o que você quer? Como você quer a sua escola? Enquanto você não der liberdade para o aluno ser protagonista daquela escola. Porque o aluno é o principal interessado em se formar, em ter uma vida boa, mas ele não é ouvido dentro da escola. (Lidiane de Paula Pereira)

O fato de que os jovens afirmam não serem vistos ou ouvidos pelos dirigentes e pela equipe pedagógica da escola traz à tona uma expressiva questão, amplamente discutida pelo professor Juarez Dayrell, da Faculdade de Educação da UFMG, que afirma que uma das visões mais arraigadas que temos em relação aos jovens é a “condição de transitoriedade, na qual o jovem é um ‘vir a ser’, tendo no futuro, na passagem para a vida adulta, o sentido das suas ações no presente.” Ele prossegue afirmando que:

Essa concepção está muito presente na escola: em nome do “vir a ser” do aluno, traduzido no diploma e nos possíveis projetos de futuro, tende-se a negar o presente vivido do jovem como espaço válido de formação, assim como as questões existenciais que eles expõem, bem mais amplas do que apenas o futuro. (DAYRELL, 2003, p.41)

As especificidades das juventudes precisam ser enxergadas e levadas em consideração nos processos de ensino-aprendizagem e nas tomadas de decisão nas escolas. Um estudante, de fato, não é um “vir a ser”; como já demonstramos aqui, os estudantes são, pensam, falam e também querem hoje participar ativamente das decisões tomadas nas escolas, conforme diz a jovem Lidiane:

Eu quero uma educação de qualidade e eu quero ajudar a construir uma educação de qualidade. Eu quero falar como é para mim e como eu quero construir isso junto com outros atores na escola. (Lidiane de Paula Pereira)

A questão da qualidade na educação é complexa e exige cuidado em sua análise, por se articular a diversos e diferentes fatores, sejam eles intraescolares ou relativos ao contexto político, social, econômico e cultural mais amplo. Nas palavras de Dourado e Oliveira:

Compreende-se então a qualidade com base em uma perspectiva polissêmica, em que a concepção de mundo, de sociedade e de educação evidencia e define os elementos para qualificar, avaliar e precisar a natureza, as propriedades e os atributos desejáveis de um processo educativo de qualidade social. […] o alcance do que se almeja como qualidade da educação se vincula aos diferentes espaços, atores e processos formativos, em seus diferentes níveis, ciclos e modalidades educativas, bem como à trajetória histórico-cultural e ao projeto de nação que, ao estabelecer diretrizes e bases para o seu sistema educacional, indica o horizonte jurídico normativo em que a educação se efetiva ou não como direito social. (DOURADO e OLIVEIRA, 2009, p.202-203).

Do ponto de vista dos jovens entrevistados, a qualidade na educação é associada a como a escola, enquanto instituição, se relaciona com o seu entorno e com a comunidade escolar. Além disso, a qualidade na educação foi relacionada também com o “como” e “para que” a escola está formando os estudantes, como observamos na fala do jovem Jordan:

Uma escola de qualidade seria uma escola que te ensina a ser um cidadão e não a ser um trabalhador. Porque um trabalhador qualquer um pode ser, mas um cidadão que sabe os seus direitos e sabe usar o seu voto e sabe falar por ele mesmo e pelos seus semelhantes é muito difícil de ser moldado. (Jordan Campos da Costa)

Em relação à atratividade do currículo, eles apontaram o fato de ele ser sobrecarregado, “inchado”, de não haver tempo suficiente para que ele seja trabalhado, bem como de estar distante da realidade vivenciada pelos jovens. Vejamos a seguir:

Eu não acho que ele [o currículo] tem atração para o estudante que acabou de vir do Ensino Fundamental. Acho que ele deveria abranger menos conteúdo e ser mais limpo. Porque quando você olha a carga horária e a quantidade de matérias, você sabe que você não terá 50% da matéria. Professores faltam, feriados, projetos… É um conteúdo imenso para ser passado em muito pouco tempo. É um conteúdo pesado. Conteúdo muito pesado para ser “pego” em muito pouco tempo. (Jordan Campos da Costa)

Não atrai porque ele é inchado, ele é superficial. Porque lá está escrito que você tem que ter tais coisas, mas você nunca tem essas coisas. Ou quando você tem, tem o início, mais o meio daquilo ali, e você não tem tudo por completo. Então, não consegue fazer as conexões entre as matérias. Você não consegue ligar o que você aprende,  porque aprende de forma totalmente separada e aleatória. Acho que o currículo não atrai a gente principalmente porque a gente se sente cansado, a gente se vê obrigado a decorar aquilo e não a aprender. É só “tacada” a matéria na maioria das vezes. (Lidiane de Paula Pereira)

Ao se referirem a como as temáticas diversidade e desigualdade são tratadas no currículo do atual Ensino Médio, os jovens apontaram falta de atualização por não trabalhar tais temáticas, como podemos conferir nos trechos a seguir:

Essas questões como racismo, desigualdade de gênero, também podem ser trazidas para dentro do currículo, porque o currículo que temos é um currículo velho. É um currículo que trata de problemas de 20 anos atrás. O Brasil de hoje tem muito mais problemas que precisam ser abordados. (Jordan Campos da Costa)

O currículo atual, teoricamente ele deveria conseguir fazer essas discussões, de sexualidade, de diversidade cultural, até mesmo política e religião. Só que no momento, que já vem desde 20 anos atrás, ele não consegue. Está pautado nesse currículo Filosofia, Sociologia. São matérias com um nível de desenvolvimento tanto em debates e em teorias que deveriam ser aplicadas como ações dessas discussões. Só que elas não ocorrem. Acabam ocorrendo dentro de uma apostila com três questões. O que você acha sobre isso? E fica lá dentro. Você não consegue trazer isso para fora. As discussões de etnia, racismo, preconceito, elas são pouco exploradas, com certeza. Deveriam ser mais exploradas principalmente pela realidade do século 21 que nós vivemos, só que elas não, não são exploradas. Acabam sendo conteúdos muito superficiais. (Lucas Eduardo)

Há, nas falas dos entrevistados, ainda algumas ponderações sobre o aperfeiçoamento do currículo do Ensino Médio. Os relatos destacam o pouco diálogo e conexão entre as disciplinas escolares e o desenvolvimento de uma proposta didático-pedagógica que explore o pensamento crítico do estudante, como podemos conferir nos trechos a seguir:

A ligação entre as matérias, entre as disciplinas que são dadas. Uma disciplina casa muito pouco com a outra, mesmo elas tendo caminhos parecidos elas se falam muito pouco […] Eu acho que para o currículo ser aperfeiçoado nós precisamos de uma maior coesão, uma maior conexão entre as matérias, que elas possam se falar entre elas e que não sejam apenas matérias jogadas a esmo em cima do aluno. (Jordan Campos da Costa)

Trabalhar mais com o pensamento crítico do aluno. Achar espaço no currículo para que o aluno possa debater o que ele está aprendendo. Para que ele possa aprender de verdade e não decorar. (Lidiane de Paula Pereira)

Chamou a atenção a fala de um jovem que indicou como ponto de aperfeiçoamento a “integração do jovem dentro do currículo” (Lucas Eduardo). No geral, os discursos dos jovens evidenciam que ainda não superamos a perspectiva fragmentada do currículo do Ensino Médio, com ausência de diálogo entre as áreas de conhecimento, com as recentes transformações históricas e sociais e com as próprias juventudes.

Considerações finais

Entendemos que a participação de todos os “atores escolares” é a essência para o desenvolvimento de processos democráticos na escola. Nesse contexto, reforçamos que uma gestão escolar que se diz democrática e atenta às múltiplas vozes presentes na escola precisa enxergar os estudantes como potência de transformação social. Quem melhor do que os próprios jovens, que estão dentro da escola todos os dias, para falar sobre as necessidades e os desafios da escola? Aqui eles falaram sobre questões relacionadas ao currículo, à qualidade da educação, à gestão democrática, e também destacaram que a escuta ativa é um elemento vital nos processos formativos em curso nas escolas, bem como para a gestão escolar, pois amplia as possibilidades de se fazer escolhas mais coerentes com as expectativas dos estudantes, atendendo seus anseios e necessidades existentes “hoje”, e não somente no futuro.

Referências

DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. In Revista Brasileira de Educação. nº 24. p. 42 – 52. set/out/nov 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n24/n24a04.pdf> Acesso em 09/03/2017.

DOURADO, Luis Fernandes e OLIVEIRA, João ferreira de. A qualidade na educação: perspectivas e desafios. Cad. Cedes, Campinas vol. 29, n. 78, p. 201-215, maio/ago. 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v29n78/v29n78a04.pdf> Acesso em 13/03/2017.